Uma madrugada, uma cabeça cheia de pensamentos, anos de tratamento contra a depressão e uma poesia que acabou me levando de volta ao rap. Essa é a história de O Porão. Sem maquiagem, sem personagem e sem fingir que está tudo bem.
Primeiro, preciso contar de onde saiu essa parada
Vou começar deixando uma coisa clara: eu não escrevi O Porão pensando em lançar uma música.
Não tinha beat, não tinha refrão, não tinha produtor, não tinha projeto de voltar ao rap. Não tinha porra nenhuma disso.
Era só eu, uma madrugada e um monte de coisa atravessada na cabeça. Quem convive com a depressão sabe que nem sempre dá pra explicar o que acontece lá dentro. E olha que passei anos em tratamento, tentando entender, lidar, colocar as coisas no lugar.
Tem dia que você acorda bem. Tem dia que parece que acordou carregando um caminhão nas costas. E tem aqueles momentos em que nem você sabe dizer exatamente o que está sentindo.
É uma mistura maluca.
Você quer esquecer algumas coisas, mas não quer perder as lembranças. Quer ficar sozinho, mas também quer que alguém perceba que alguma coisa não está legal. Quer falar, mas não sabe por onde começar.
E, às vezes, nem sabe se quer falar. Naquela madrugada, eu escrevi. Não porque achei que sairia uma grande poesia. Muito menos porque pensei que aquilo pudesse virar uma música.
Escrevi porque precisava colocar alguma coisa pra fora. Talvez fosse uma tentativa de entender o que estava acontecendo. Talvez fosse só mais uma conversa comigo mesmo. Ou talvez eu estivesse tentando encontrar a saída de um lugar onde minha cabeça insistia em me colocar.
Foi daí que nasceu O Porão.
Mas que porra de porão é esse?
A primeira frase da música diz: “No fundo do poço tem um porão.”
Pensa nessa ideia. A gente cresce ouvindo que alguém chegou ao fundo do poço. Que está na pior, que não tem mais pra onde cair.
Pois é.
Na minha cabeça, ainda tinha um porão lá embaixo. E esse porão não tem endereço, não fica embaixo de uma casa e não aparece no Google Maps. Ele é aquele lugar que a gente carrega por dentro.
É onde ficam guardadas as lembranças que incomodam, os medos que você não conta pra ninguém, as culpas que insiste em carregar e aquelas perguntas que parecem não ter resposta. E o mais louco é que, por fora, pode estar tudo aparentemente normal.
Você trabalha, conversa, ri, resolve problema, faz planos, paga conta, encontra os amigos. Mas tem uma parte da sua cabeça que continua visitando aquele lugar. Sempre, sem pedir licença.
Eu quis transformar isso num cenário.
Imaginei paredes, corredores, grades, sombras, papéis espalhados, um poço e um porão ainda mais profundo. Cada imagem da letra representa alguma coisa. Não é uma história sobre um prédio abandonado. É sobre uma mente que, em determinados momentos, parece um prédio abandonado.
E olha que merda: você conhece aquele lugar inteiro, mas mesmo assim consegue se perder dentro dele.
Riscar, apagar, deletar. Se fosse fácil assim…
Tem uma parte da música em que falo sobre riscar, apagar e deletar.
Essa ideia veio de uma coisa que sempre me intrigou: a gente consegue apagar quase tudo hoje em dia. Apaga mensagem, foto, arquivo, conversa, histórico.
Fez merda num texto? Ctrl+Z. Não gostou da imagem? Joga fora. Quer começar outro projeto? Abre uma página em branco.
Mas e a cabeça?
Onde fica o botão de apagar determinadas lembranças? Onde está a lixeira dos pensamentos que a gente não quer mais carregar?
Não tem. Ou, pelo menos, eu nunca encontrei.
Tem coisa que aconteceu há muito tempo e continua aparecendo do nada. Um cheiro, uma música, uma rua, uma palavra. Pronto. A memória abre um arquivo que você nem lembrava que estava guardado. E nem sempre é uma lembrança ruim. Às vezes é uma lembrança boa que dói justamente porque ficou no passado.
Essa é uma das contradições que tentei colocar na poesia. A gente quer esquecer algumas coisas, mas também tem medo de esquecer outras. Quer seguir em frente, mas continua olhando pelo retrovisor.
A memória não funciona como um computador. E, puta que pariu, como seria mais fácil se funcionasse.
O rap ficou guardado, mas nunca saiu completamente de mim
Talvez muita gente que me conhece hoje nem saiba dessa parte.
Eu já escrevia muito antes de O Porão. Comecei cedo, fazendo minhas anotações, experimentando palavras, tentando transformar ideias em alguma coisa que fizesse sentido.
Depois vieram as rimas.
As primeiras gravações eram em fitas cassete, naquela época em que a gente precisava se virar com o que tinha. Nada de abrir um programa no computador e sair gravando cinquenta versões.
Era outro mundo.
Vivi o rap durante uma parte importante da minha juventude. Depois, a vida foi tomando outros caminhos. Continuei envolvido com música por um período, mas do outro lado, nos bastidores, trabalhando como pequeno empresário de artistas de outros gêneros.
Aprendi outras coisas, conheci outras realidades e vivi experiências que não tinham mais relação direta com aquele moleque que gravava suas rimas em fita. Mais tarde, acabei me afastando também desse universo.
Vieram trabalho, responsabilidades, projetos, problemas, conquistas e todas aquelas porradas que a vida distribui sem perguntar se você está preparado.
O rap foi ficando distante.
Mas ler e escrever nunca deixou de fazer parte de mim. E é engraçado pensar nisso agora. Depois de tantos anos, quando precisei colocar meus sentimentos no papel, minha cabeça foi buscar justamente aquela linguagem que eu usava lá atrás.
As rimas.
Eu não sentei naquela madrugada pensando em voltar a ser rapper.
Foi a poesia que me levou de volta ao rap. Não o contrário.
DJ Yzak: de referência musical a amigo que me empurrou de volta pras rimas
Agora preciso falar de um cara que tem uma participação fundamental nessa história.
DJ Yzak.
E, pra entender o tamanho disso pra mim, preciso voltar alguns bons anos. Sou fã do trabalho do Yzak desde os tempos do Consciência X Atual, grupo de Ribeirão Preto, interior de São Paulo, que marcou sua história no rap.
Eu acompanhava aquela parada como ouvinte, nos ensaios, admirando o som, as produções e a identidade que o grupo carregava. Yzak era uma daquelas referências que faziam parte da minha formação musical.
O tempo passou e, por essas voltas que a vida dá, acabamos nos envolvendo em outros projetos. A referência artística virou família. E foi pra esse amigo que mostrei a poesia O Porão. Eu não cheguei com uma proposta de gravação. Não apresentei um projeto de lançamento. Não tinha nada disso.
Era um texto.
Uma poesia escrita numa madrugada, carregada de coisas que eu estava tentando colocar pra fora. Yzak enxergou ali uma música. E mais do que isso: me incentivou a voltar ao rap.
Pensa na situação. O cara que eu admirava desde moleque estava me encorajando a pegar o microfone novamente. Tem coisa que a vida apronta que parece roteiro de filme. Foi esse incentivo que mudou o rumo da história.
O que era pra ficar no papel começou a ganhar outra forma. As palavras encontraram um beat, uma estrutura, uma produção. E eu me vi fazendo algo que não fazia havia muitos anos. Rimando de novo. Confesso que não foi tão simples.
Não pra tentar reviver o passado. Não pra fingir que ainda sou aquele moleque das fitas cassete. Mas pra contar uma história que só poderia ser contada por quem sou hoje.
Yzak não entrou apenas como produtor. Ele foi o amigo que olhou pra uma poesia e me fez enxergar uma música onde eu ainda não estava vendo.
Rapper Moysés: não era só sobre encontrar uma voz pro refrão
Outra participação que tem um significado muito especial pra mim é a do Rapper Moysés.
E aqui acontece uma parada parecida com a história do Yzak. Sou fã do trabalho de Moysés há muitos anos, acompanhando sua trajetória no A286, sua passagem pelo Facção Central e suas obras autorais.
Sempre admirei a maneira como ele transforma experiências, histórias e realidade em música. E, com o tempo, essa admiração também se tornou amizade.
Quando O Porão começou a tomar forma, pensei nele para interpretar o refrão. Falei com o Dj, ele disse: “Porra, não tem ninguém melhor pra essa obra”
Mas não foi simplesmente porque eu queria uma voz bonita na música. Claro que a interpretação importa. Estamos falando de música, porra!
Só que, pra mim, não bastava alguém cantar bem.
Eu queria alguém que tivesse uma ligação verdadeira com aquilo que a composição estava dizendo.
Moysés tem uma trajetória de vida e de arte que carrega muita representatividade. Quem acompanha seu trabalho sabe que existe uma história por trás daquela voz. Uma música dele que considero especialmente marcante é Estou Vivo.
Vale a pena conhecer.
É daquelas obras que fazem a gente prestar atenção não apenas no artista, mas no ser humano por trás das palavras.
E era esse significado que eu queria trazer para O Porão. O refrão fala sobre escolhas, marcas, lembranças e aquela vontade que às vezes bate de amassar uma folha e começar tudo novamente. Eu não queria uma participação escolhida apenas por conveniência musical.
Queria uma presença que fizesse sentido.
E Moysés fazia.
Hoje, quando penso nessa colaboração, vejo algo que vai muito além da gravação. Estou dividindo uma música extremamente pessoal com dois caras que admiro desde muito antes de imaginar que um dia estaríamos trabalhando juntos.
E isso, pra mim, vale pra caralho.
Se eu pudesse amassar essa folha…
O refrão é uma das partes mais importantes da música. Ele fala sobre a vontade de refazer escolhas. E quem nunca quis voltar atrás em alguma coisa?
Quem nunca pensou que poderia ter falado diferente, agido diferente, escolhido outro caminho?
Tem coisa que a gente olha pra trás e pensa: caralho, por que fiz isso?
Outras vezes, o problema nem é uma escolha errada. É uma situação que simplesmente aconteceu e que gostaríamos que tivesse sido diferente. Na música, a folha de papel representa um pouco disso.
A nossa história.
As coisas que escrevemos e aquelas que a vida escreveu sem pedir autorização. Amassar a folha seria uma tentativa de começar outra vez. Só que a vida não funciona assim.
Não existe botão de reiniciar.
E, por mais que a gente imagine outras possibilidades, precisa lidar com a história que já aconteceu. Não estou dizendo que tudo tem um motivo, que tudo acontece para ensinar alguma coisa ou qualquer outra frase pronta dessas. Tem coisa que simplesmente dói.
E pronto.
Mas existe uma diferença entre não conseguir mudar o passado e não poder construir nada daqui pra frente. Talvez seja aí que esteja uma pequena fresta de luz nessa composição. Não é sobre apagar tudo.
É sobre tentar continuar escrevendo.
O espelho, os vícios e aquela sensação de não se reconhecer
Na segunda parte da música, mergulho ainda mais fundo.
Falo de um corpo que parece levitar, mas não encontra leveza. De uma correnteza escura, de medo, de culpa e de um espelho que já não devolve o mesmo rosto. É uma maneira de representar aquela sensação de olhar pra si mesmo e pensar:
Que porra está acontecendo comigo?
Às vezes, você percebe que não está bem, mas não consegue explicar exatamente por quê. Outras vezes, sabe que alguma coisa está errada, mas não encontra energia ou clareza para lidar com aquilo.
A música também passa pela ideia dos vícios e da tentativa de anestesiar sentimentos. Não quis fazer um discurso moralista sobre isso. Quis falar da busca por alívio. Da vontade de desligar a cabeça por alguns instantes.
Só que nem tudo que distrai resolve. Nem tudo que alivia por alguns minutos ajuda a enfrentar aquilo que continua lá. Por isso usei a imagem de uma anestesia que não pega.
É uma contradição proposital.
Você procura alguma coisa para não sentir, mas continua sentindo. E, enquanto isso, o porão permanece.
A mãe, o pai e o quintal
Tem uma passagem da música que mexe muito comigo. Depois de tanta imagem pesada, tanta sombra e tanta confusão, volto para lembranças aparentemente simples.
A mãe. O pai. O quintal.
Não são grandes acontecimentos. Não estou falando de dinheiro, sucesso, fama ou qualquer conquista material. Estou falando de coisas que, quando a gente é moleque, muitas vezes nem percebe o valor que têm.
Um quintal. A presença da família. A sensação de que a vida era menos complicada.
E não estou dizendo que minha infância foi perfeita ou que antigamente tudo era maravilhoso. A memória tem dessas coisas. Ela guarda alguns momentos de um jeito diferente.
Às vezes, o que dá saudade nem é exatamente do lugar. É de como a gente se sentia naquele lugar. Ou de quem a gente era naquela época.
No meio de uma música sobre um porão escuro, o quintal aparece quase como o oposto de tudo aquilo.
O porão é fechado.
O quintal é aberto.
No porão, as paredes parecem se aproximar. No quintal, existe espaço.
Talvez seja uma das imagens mais simples da letra. E uma das que mais dizem.
Conversei com Deus. E ouvi meus próprios pensamentos
A terceira parte da música entra em outro terreno.
Fé. Dúvida. Oração. Silêncio.
Aquela procura por alguma resposta quando a cabeça já está cansada de fazer perguntas. Não escrevi essa parte para ensinar ninguém a acreditar ou deixar de acreditar em alguma coisa. É uma representação de um momento de busca.
De quando a gente pede um sinal, tenta conversar com algo maior e fica esperando que alguma resposta apareça. Mas nem sempre aparece. Às vezes, o que você escuta são os próprios pensamentos.
E isso pode ser desconcertante.
A luz que aparece na letra não é uma promessa de que tudo vai se resolver. Pode ser esperança. Pode ser fé. Pode ser só a vontade de encontrar alguma saída.
Porque, mesmo nos momentos em que tudo parece escuro, uma parte da gente ainda procura alguma coisa. Talvez seja justamente essa procura que faça a pessoa continuar tentando.
O caderno virou abrigo
Tem uma coisa que atravessa O Porão inteiro: a escrita. Papel, manuscrito, rascunho, rabisco, caligrafia, folha, caderno.
Não é por acaso. Tudo começou com palavras escritas numa madrugada. E, ao longo da composição, o papel vai se transformando quase num lugar onde posso despejar aquilo que não consigo explicar de outra maneira.
Não vou dizer que escrever curou minha depressão. Não curou.
Também não vou vender aquela conversa de que basta pensar positivo, ocupar a cabeça ou encontrar um hobby para resolver tudo. Quem passa por isso sabe que a parada é muito mais complexa.
Tratamento é coisa séria. Acompanhamento profissional é importante. E cada pessoa enfrenta suas dificuldades de um jeito. Mas escrever me permitiu dar forma a sentimentos que estavam embolados.
Não resolveu tudo. Não apagou lembranças. Não fez os problemas desaparecerem. Só que algumas coisas que estavam presas na minha cabeça passaram a existir no papel.
E, depois, numa música.
Talvez alguém escute O Porão e reconheça um sentimento que nunca conseguiu explicar. Talvez outra pessoa não se identifique com nada. Tudo bem também. Eu não escrevi essa música para ser uma cartilha sobre depressão.
Escrevi porque tinha alguma coisa dentro de mim pedindo passagem.
Depressão não tem cara, uniforme ou endereço
Quero falar de uma coisa que considero importante. Existe uma tendência de imaginar que a depressão sempre aparece de um jeito evidente. Como se a pessoa precisasse estar chorando, isolada ou demonstrando tristeza o tempo inteiro.
Mas nem sempre é assim.
Você pode encontrar alguém trabalhando, brincando, contando piada, fazendo planos e resolvendo a vida de todo mundo. E não fazer ideia do que aquela pessoa enfrenta quando está sozinha. Não estou dizendo que todo mundo vive a mesma experiência. Nem que a minha história representa a de todas as pessoas que convivem com depressão ou ansiedade.
Não representa. É a minha.
Mas talvez ajude alguém a compreender que sofrimento emocional não é frescura, falta de vontade ou fraqueza. E que não adianta chegar com meia dúzia de frases prontas achando que resolveu o problema. Às vezes, a pessoa precisa ser ouvida.
Às vezes, precisa de acompanhamento profissional.
Às vezes, precisa de tempo, acolhimento e condições para continuar o tratamento.
E, muitas vezes, precisa de uma combinação dessas coisas. Se essa música conseguir abrir uma conversa sobre isso, já terá alcançado algo que eu nem imaginava quando escrevi a poesia.
De fã a parceiro de música. Que viagem do caralho!
Tem uma parte dessa história que ainda acho curiosa. Eu cresci ouvindo e admirando artistas que fizeram parte da construção do meu gosto musical.
DJ Yzak, nos tempos de Consciência X Atual.
Rapper Moysés, nas trajetórias do A286, Facção Central e em seus trabalhos autorais.
Esses caras faziam parte do meu universo como ouvinte. E hoje fazem parte da minha vida como amigos. Mais do que isso: estão comigo numa música que nasceu de uma experiência extremamente pessoal. Se alguém tivesse me contado isso lá atrás, provavelmente eu daria risada.
E não porque fosse impossível.
Mas porque a vida segue uns caminhos tão malucos que a gente não consegue imaginar onde vai parar. O mais interessante é que essa colaboração não nasceu de uma estratégia para juntar nomes conhecidos numa faixa.
Nasceu de amizade. De admiração. De identificação.
Yzak ouviu uma poesia e me incentivou a voltar.
Moysés aceitou dividir comigo uma parada que fala de sentimentos difíceis.
E eu tive a oportunidade de fazer música com dois artistas que admiro há muitos anos. É uma daquelas situações em que o significado pessoal é tão grande quanto o resultado artístico.
O moleque das fitas cassete e o homem de 47
Comecei a escrever aos 13 anos. Aos 15, já estava fazendo minhas rimas e gravando em fitas cassete. Vivi o rap até por volta dos 19.
Depois, segui outros caminhos na música, trabalhei com artistas de outros gêneros e, mais tarde, me afastei desse universo.
Hoje! E aqui estou eu, de volta ao rap. Só que não estou tentando recuperar aquele moleque de antigamente. Ele fez parte da minha história, mas a vida aconteceu.
Muita coisa mudou. Eu mudei.
E seria estranho voltar fingindo que continuo enxergando o mundo da mesma maneira.
O Porão não é uma música que eu teria escrito aos 15 anos.
Não porque aquele moleque fosse incapaz de escrever algo intenso, mas porque esta composição carrega experiências, sentimentos e perguntas que vieram depois.
São marcas de uma caminhada.
Algumas boas.
Outras nem tanto.
E talvez seja isso que mais me impressione nessa história. Depois de tantos anos longe do rap, não foi a saudade do palco, do microfone ou de gravar uma música que me trouxe de volta. Foi a necessidade de escrever. De colocar alguma coisa pra fora.
Voltei ao rap porque, numa madrugada, precisei conversar com um pedaço de papel.
Nem todo porão fica debaixo de uma casa
Agora que O Porão virou música e está disponível para outras pessoas ouvirem, tenho pensado bastante sobre tudo isso.
É estranho imaginar que uma poesia tão pessoal possa chegar a alguém que nunca me viu, nunca conversou comigo e não sabe absolutamente nada sobre minha vida. Essa pessoa pode ouvir a música e interpretar de um jeito completamente diferente daquele que imaginei quando escrevi.
E está tudo certo. A arte também é isso.
Depois que a gente coloca uma obra no mundo, ela deixa de pertencer apenas à nossa interpretação. Cada um escuta com suas próprias lembranças, suas experiências, suas dores e sua maneira de enxergar as coisas.
Não espero que O Porão resolva o problema de ninguém. Nem que todo mundo goste. Muito menos que seja recebida como alguma grande lição de vida.
Não é essa a intenção.
Eu só queria transformar sentimentos em palavras. E, por uma dessas voltas que a vida dá, aquelas palavras viraram uma música com dois amigos que admiro pra caralho.
Se alguém se identificar, espero que encontre também espaço para conversar sobre aquilo que sente e procurar apoio quando precisar.
Quanto a mim, continuo tentando entender muita coisa. Ainda tenho perguntas. Ainda tenho lembranças que gostaria de reorganizar. Ainda existem dias bons e dias difíceis. Não vou inventar um final feliz só para deixar esse texto mais bonito.
A vida não é um filme em que tudo se resolve nos últimos cinco minutos. Mas uma coisa eu posso dizer:
Aquela madrugada, que começou com um monte de pensamentos difíceis e uma folha de papel, acabou me devolvendo algo que estava distante havia muitos anos.
O rap.
E isso tem um significado enorme pra mim.
Nem todo porão fica debaixo de uma casa.
Alguns ficam dentro da gente. E, às vezes, a primeira maneira de abrir uma porta é conseguir falar sobre o que existe lá dentro. Foi o que tentei fazer.
Sem personagem. Sem maquiagem. Sem fingir que tenho todas as respostas.
Só eu, minhas rimas e essa porra de porão.
NIASA – O PORÃO
Composição e interpretação: Niasa
Produção musical: DJ Yzak
Participação especial e refrão: Rapper Moysés
Gravadora: Abracadabra
Lançamento: outubro de 2026
Se você está enfrentando sofrimento emocional, não precisa lidar com tudo sozinho. Busque apoio de pessoas de confiança e profissionais de saúde. No Brasil, o CVV oferece escuta gratuita pelo telefone 188, 24 horas por dia.


Muito Boa Reflexão, Depressão é doença e precisa ser tratada, e a música te leva para um universo paralelo, a Arte encontra as emoções e por algumas vezes até a Cura, o sentimento aprisiona e liberta, depende de como lida com ele, Parabéns pela grande contribuição irmão, espero que o tempo a leve para quem necessita desse encontro, a Obra e o Público.
Salve, Doghetto! Meu irmão, que satisfação ler suas palavras!
Você pegou exatamente a essência da parada. A música tem esse poder absurdo de alcançar lugares onde, muitas vezes, nem a gente consegue chegar com as próprias palavras.
O Porão nasceu justamente dessa confusão de sentimentos, numa tentativa de colocar pra fora o que estava preso aqui dentro. Não sei se a arte cura, mas sei que ela ajuda a gente a respirar, refletir e, às vezes, encontrar algum sentido no meio do caos.
E você falou uma coisa muito forte: o encontro da obra com quem precisa ouvi-la. Se essa música alcançar uma única pessoa e fizer ela perceber que não está sozinha nessa caminhada, já valeu pra caralho!
Obrigado pelo carinho, pela reflexão e pelo respeito à obra. Vindo de você, que também conhece o peso e a responsabilidade das rimas, tem um significado especial.
Tamo junto, irmão!
Todo respeito meu irmão Niasa! Você me ajuda na caminhada com minha depresssão, tanto no passado com agora no presente, com esse relato e som. Essa doença que temos que encarar com uma uma ferramenta que lapida homens de caráter forte é uma pandemia e é uma questão que tem que chegar a todos que precisam para que essa pessoa descubramque não estão sozinhas, que existe uma solução e um amanhã. E que o fim é sempre um novo começo. Você representa essa luta, apenas siga! Respeito maxímo! Deus é contigo e Ele te abençoa sempre!
Salve Underdog, tem dias em que a gente simplesmente tenta ficar de pé, e isso já é uma puta vitória. Mas acredito que falar sobre ela, buscar tratamento e dividir nossas experiências pode ajudar a quebrar esse silêncio que machuca tanta gente. Obrigado pelo respeito, pelo carinho e, principalmente, pela confiança em dividir sua história.
Bom dia meu Amigo das antigas ( bem antigas msm rsrs) saudades de Vc
Porão ficou um trabalho muito bem feito, totalmente verdadeiro, acho q quase Todos ja teve seus perrengue numa longa noite q o sono não vem, pensando em fazer merda, e alguns fazem né, Vc conseguiu transformar em música e ficou muito bacana, Deus abençoe e todo sucesso pra Vc forte abraço Irmão
Salveee, Ziel! Meu irmão das antigas, e põe antigas nisso! Kkkkk 😂👊
Caralho, mano, quanto tempo! Saudade demais de você e daquela época que a gente nem imaginava quantas histórias ainda teria pra contar!
E você falou uma verdade: quem nunca atravessou uma madrugada daquelas, com a cabeça a mil, brigando com os próprios pensamentos e esperando o dia clarear?
Obrigado de coração pelo carinho, pela amizade e pelas palavras. Que Deus abençoe você e sua família também!
Parabens irmao!!!!!
sucessooo!!!
Salveee, Marrichi! Meu irmão, obrigado demais pelo carinho e pela força! 👊🔥
Bom demais ter você chegando junto nessa caminhada.
Tamo junto sempre, irmão! Respeito máximo!