{"id":1278,"date":"2026-10-20T09:23:05","date_gmt":"2026-10-20T12:23:05","guid":{"rendered":"https:\/\/marcioniasa.eu\/blog\/?p=1278"},"modified":"2026-10-21T07:47:03","modified_gmt":"2026-10-21T10:47:03","slug":"o-porao-eu-nao-escrevi-essa-porra-pra-virar-musica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marcioniasa.eu\/blog\/o-porao-eu-nao-escrevi-essa-porra-pra-virar-musica\/","title":{"rendered":"O Por\u00e3o: Eu n\u00e3o escrevi essa porra pra virar m\u00fasica"},"content":{"rendered":"<p><em>Uma madrugada, uma cabe\u00e7a cheia de pensamentos, anos de tratamento contra a depress\u00e3o e uma poesia que acabou me levando de volta ao rap. Essa \u00e9 a hist\u00f3ria de O Por\u00e3o. Sem maquiagem, sem personagem e sem fingir que est\u00e1 tudo bem.<\/em><\/p>\n<h2>Primeiro, preciso contar de onde saiu essa parada<\/h2>\n<p>Vou come\u00e7ar deixando uma coisa clara: <strong>eu n\u00e3o escrevi O Por\u00e3o pensando em lan\u00e7ar uma m\u00fasica.<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o tinha beat, n\u00e3o tinha refr\u00e3o, n\u00e3o tinha produtor, n\u00e3o tinha projeto de voltar ao rap. N\u00e3o tinha porra nenhuma disso.<\/p>\n<p>Era s\u00f3 eu, uma madrugada e um monte de coisa atravessada na cabe\u00e7a.\u00a0Quem convive com a depress\u00e3o sabe que nem sempre d\u00e1 pra explicar o que acontece l\u00e1 dentro. E olha que passei anos em tratamento, tentando entender, lidar, colocar as coisas no lugar.<\/p>\n<p>Tem dia que voc\u00ea acorda bem. Tem dia que parece que acordou carregando um caminh\u00e3o nas costas. E tem aqueles momentos em que nem voc\u00ea sabe dizer exatamente o que est\u00e1 sentindo.<\/p>\n<p>\u00c9 uma mistura maluca.<\/p>\n<p>Voc\u00ea quer esquecer algumas coisas, mas n\u00e3o quer perder as lembran\u00e7as. Quer ficar sozinho, mas tamb\u00e9m quer que algu\u00e9m perceba que alguma coisa n\u00e3o est\u00e1 legal. Quer falar, mas n\u00e3o sabe por onde come\u00e7ar.<\/p>\n<p>E, \u00e0s vezes, nem sabe se quer falar.\u00a0Naquela madrugada, eu escrevi.\u00a0N\u00e3o porque achei que sairia uma grande poesia. Muito menos porque pensei que aquilo pudesse virar uma m\u00fasica.<\/p>\n<p>Escrevi porque precisava colocar alguma coisa pra fora.\u00a0Talvez fosse uma tentativa de entender o que estava acontecendo. Talvez fosse s\u00f3 mais uma conversa comigo mesmo.\u00a0Ou talvez eu estivesse tentando encontrar a sa\u00edda de um lugar onde minha cabe\u00e7a insistia em me colocar.<\/p>\n<p><strong>Foi da\u00ed que nasceu O Por\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<h2>Mas que porra de por\u00e3o \u00e9 esse?<\/h2>\n<p>A primeira frase da m\u00fasica diz:\u00a0<strong>\u201cNo fundo do po\u00e7o tem um por\u00e3o.\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Pensa nessa ideia.\u00a0A gente cresce ouvindo que algu\u00e9m chegou ao fundo do po\u00e7o. Que est\u00e1 na pior, que n\u00e3o tem mais pra onde cair.<\/p>\n<p>Pois \u00e9.<\/p>\n<p>Na minha cabe\u00e7a, ainda tinha um por\u00e3o l\u00e1 embaixo.\u00a0E esse por\u00e3o n\u00e3o tem endere\u00e7o, n\u00e3o fica embaixo de uma casa e n\u00e3o aparece no Google Maps.\u00a0Ele \u00e9 aquele lugar que a gente carrega por dentro.<\/p>\n<p>\u00c9 onde ficam guardadas as lembran\u00e7as que incomodam, os medos que voc\u00ea n\u00e3o conta pra ningu\u00e9m, as culpas que insiste em carregar e aquelas perguntas que parecem n\u00e3o ter resposta.\u00a0E o mais louco \u00e9 que, por fora, pode estar tudo aparentemente normal.<\/p>\n<p>Voc\u00ea trabalha, conversa, ri, resolve problema, faz planos, paga conta, encontra os amigos.\u00a0Mas tem uma parte da sua cabe\u00e7a que continua visitando aquele lugar.\u00a0Sempre, sem pedir licen\u00e7a.<\/p>\n<p>Eu quis transformar isso num cen\u00e1rio.<\/p>\n<p>Imaginei paredes, corredores, grades, sombras, pap\u00e9is espalhados, um po\u00e7o e um por\u00e3o ainda mais profundo.\u00a0Cada imagem da letra representa alguma coisa.\u00a0N\u00e3o \u00e9 uma hist\u00f3ria sobre um pr\u00e9dio abandonado. \u00c9 sobre uma mente que, em determinados momentos, parece um pr\u00e9dio abandonado.<\/p>\n<p>E olha que merda: voc\u00ea conhece aquele lugar inteiro, mas mesmo assim consegue se perder dentro dele.<\/p>\n<h2>Riscar, apagar, deletar. Se fosse f\u00e1cil assim&#8230;<\/h2>\n<p>Tem uma parte da m\u00fasica em que falo sobre riscar, apagar e deletar.<\/p>\n<p>Essa ideia veio de uma coisa que sempre me intrigou: a gente consegue apagar quase tudo hoje em dia.\u00a0Apaga mensagem, foto, arquivo, conversa, hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>Fez merda num texto? Ctrl+Z.\u00a0N\u00e3o gostou da imagem? Joga fora.\u00a0Quer come\u00e7ar outro projeto? Abre uma p\u00e1gina em branco.<\/p>\n<p>Mas e a cabe\u00e7a?<\/p>\n<p>Onde fica o bot\u00e3o de apagar determinadas lembran\u00e7as?\u00a0Onde est\u00e1 a lixeira dos pensamentos que a gente n\u00e3o quer mais carregar?<\/p>\n<p>N\u00e3o tem.\u00a0Ou, pelo menos, eu nunca encontrei.<\/p>\n<p>Tem coisa que aconteceu h\u00e1 muito tempo e continua aparecendo do nada. Um cheiro, uma m\u00fasica, uma rua, uma palavra. Pronto. A mem\u00f3ria abre um arquivo que voc\u00ea nem lembrava que estava guardado.\u00a0E nem sempre \u00e9 uma lembran\u00e7a ruim. \u00c0s vezes \u00e9 uma lembran\u00e7a boa que d\u00f3i justamente porque ficou no passado.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 uma das contradi\u00e7\u00f5es que tentei colocar na poesia.\u00a0A gente quer esquecer algumas coisas, mas tamb\u00e9m tem medo de esquecer outras.\u00a0Quer seguir em frente, mas continua olhando pelo retrovisor.<\/p>\n<p><strong>A mem\u00f3ria n\u00e3o funciona como um computador. E, puta que pariu, como seria mais f\u00e1cil se funcionasse.<\/strong><\/p>\n<h2>O rap ficou guardado, mas nunca saiu completamente de mim<\/h2>\n<p>Talvez muita gente que me conhece hoje nem saiba dessa parte.<\/p>\n<p>Eu j\u00e1 escrevia muito antes de O Por\u00e3o.\u00a0Comecei cedo, fazendo minhas anota\u00e7\u00f5es, experimentando palavras, tentando transformar ideias em alguma coisa que fizesse sentido.<\/p>\n<p>Depois vieram as rimas.<\/p>\n<p>As primeiras grava\u00e7\u00f5es eram em fitas cassete, naquela \u00e9poca em que a gente precisava se virar com o que tinha.\u00a0Nada de abrir um programa no computador e sair gravando cinquenta vers\u00f5es.<\/p>\n<p>Era outro mundo.<\/p>\n<p>Vivi o rap durante uma parte importante da minha juventude. Depois, a vida foi tomando outros caminhos.\u00a0Continuei envolvido com m\u00fasica por um per\u00edodo, mas do outro lado, nos bastidores, trabalhando como pequeno empres\u00e1rio de artistas de outros g\u00eaneros.<\/p>\n<p>Aprendi outras coisas, conheci outras realidades e vivi experi\u00eancias que n\u00e3o tinham mais rela\u00e7\u00e3o direta com aquele moleque que gravava suas rimas em fita.\u00a0Mais tarde, acabei me afastando tamb\u00e9m desse universo.<\/p>\n<p>Vieram trabalho, responsabilidades, projetos, problemas, conquistas e todas aquelas porradas que a vida distribui sem perguntar se voc\u00ea est\u00e1 preparado.<\/p>\n<p>O rap foi ficando distante.<\/p>\n<p>Mas ler e escrever nunca deixou de fazer parte de mim.\u00a0E \u00e9 engra\u00e7ado pensar nisso agora.\u00a0Depois de tantos anos, quando precisei colocar meus sentimentos no papel, minha cabe\u00e7a foi buscar justamente aquela linguagem que eu usava l\u00e1 atr\u00e1s.<\/p>\n<p>As rimas.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o sentei naquela madrugada pensando em voltar a ser rapper.<\/p>\n<p><strong>Foi a poesia que me levou de volta ao rap. N\u00e3o o contr\u00e1rio.<\/strong><\/p>\n<h2>DJ Yzak: de refer\u00eancia musical a amigo que me empurrou de volta pras rimas<\/h2>\n<p>Agora preciso falar de um cara que tem uma participa\u00e7\u00e3o fundamental nessa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p><strong>DJ Yzak.<\/strong><\/p>\n<p>E, pra entender o tamanho disso pra mim, preciso voltar alguns bons anos.\u00a0Sou f\u00e3 do trabalho do Yzak desde os tempos do <strong>Consci\u00eancia X Atual<\/strong>, grupo de Ribeir\u00e3o Preto, interior de S\u00e3o Paulo, que marcou sua hist\u00f3ria no rap.<\/p>\n<p>Eu acompanhava aquela parada como ouvinte, nos ensaios, admirando o som, as produ\u00e7\u00f5es e a identidade que o grupo carregava.\u00a0Yzak era uma daquelas refer\u00eancias que faziam parte da minha forma\u00e7\u00e3o musical.<\/p>\n<p>O tempo passou e, por essas voltas que a vida d\u00e1, acabamos nos envolvendo em outros projetos.\u00a0A refer\u00eancia art\u00edstica virou fam\u00edlia.\u00a0E foi pra esse amigo que mostrei a poesia O Por\u00e3o.\u00a0Eu n\u00e3o cheguei com uma proposta de grava\u00e7\u00e3o. N\u00e3o apresentei um projeto de lan\u00e7amento. N\u00e3o tinha nada disso.<\/p>\n<p>Era um texto.<\/p>\n<p>Uma poesia escrita numa madrugada, carregada de coisas que eu estava tentando colocar pra fora.\u00a0Yzak enxergou ali uma m\u00fasica.\u00a0E mais do que isso: me incentivou a voltar ao rap.<\/p>\n<p>Pensa na situa\u00e7\u00e3o.\u00a0O cara que eu admirava desde moleque estava me encorajando a pegar o microfone novamente.\u00a0Tem coisa que a vida apronta que parece roteiro de filme.\u00a0Foi esse incentivo que mudou o rumo da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>O que era pra ficar no papel come\u00e7ou a ganhar outra forma. As palavras encontraram um beat, uma estrutura, uma produ\u00e7\u00e3o.\u00a0E eu me vi fazendo algo que n\u00e3o fazia havia muitos anos.\u00a0Rimando de novo. Confesso que n\u00e3o foi t\u00e3o simples.<\/p>\n<p>N\u00e3o pra tentar reviver o passado.\u00a0N\u00e3o pra fingir que ainda sou aquele moleque das fitas cassete.\u00a0Mas pra contar uma hist\u00f3ria que s\u00f3 poderia ser contada por quem sou hoje.<\/p>\n<p><strong>Yzak n\u00e3o entrou apenas como produtor. Ele foi o amigo que olhou pra uma poesia e me fez enxergar uma m\u00fasica onde eu ainda n\u00e3o estava vendo.<\/strong><\/p>\n<h2>Rapper Moys\u00e9s: n\u00e3o era s\u00f3 sobre encontrar uma voz pro refr\u00e3o<\/h2>\n<p>Outra participa\u00e7\u00e3o que tem um significado muito especial pra mim \u00e9 a do <strong>Rapper Moys\u00e9s<\/strong>.<\/p>\n<p>E aqui acontece uma parada parecida com a hist\u00f3ria do Yzak.\u00a0Sou f\u00e3 do trabalho de Moys\u00e9s h\u00e1 muitos anos, acompanhando sua trajet\u00f3ria no <strong>A286<\/strong>, sua passagem pelo <strong>Fac\u00e7\u00e3o Central<\/strong> e suas obras autorais.<\/p>\n<p>Sempre admirei a maneira como ele transforma experi\u00eancias, hist\u00f3rias e realidade em m\u00fasica.\u00a0E, com o tempo, essa admira\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m se tornou amizade.<\/p>\n<p>Quando O Por\u00e3o come\u00e7ou a tomar forma, pensei nele para interpretar o refr\u00e3o. Falei com o Dj, ele disse: &#8220;Porra, n\u00e3o tem ningu\u00e9m melhor pra essa obra&#8221;<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o foi simplesmente porque eu queria uma voz bonita na m\u00fasica.\u00a0Claro que a interpreta\u00e7\u00e3o importa. Estamos falando de m\u00fasica, porra!<\/p>\n<p>S\u00f3 que, pra mim, n\u00e3o bastava algu\u00e9m cantar bem.<\/p>\n<p><strong>Eu queria algu\u00e9m que tivesse uma liga\u00e7\u00e3o verdadeira com aquilo que a composi\u00e7\u00e3o estava dizendo.<\/strong><\/p>\n<p>Moys\u00e9s tem uma trajet\u00f3ria de vida e de arte que carrega muita representatividade. Quem acompanha seu trabalho sabe que existe uma hist\u00f3ria por tr\u00e1s daquela voz.\u00a0Uma m\u00fasica dele que considero especialmente marcante \u00e9 <strong>Estou Vivo<\/strong>.<\/p>\n<p>Vale a pena conhecer.<\/p>\n<p>\u00c9 daquelas obras que fazem a gente prestar aten\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas no artista, mas no ser humano por tr\u00e1s das palavras.<\/p>\n<p>E era esse significado que eu queria trazer para O Por\u00e3o.\u00a0O refr\u00e3o fala sobre escolhas, marcas, lembran\u00e7as e aquela vontade que \u00e0s vezes bate de amassar uma folha e come\u00e7ar tudo novamente.\u00a0Eu n\u00e3o queria uma participa\u00e7\u00e3o escolhida apenas por conveni\u00eancia musical.<\/p>\n<p>Queria uma presen\u00e7a que fizesse sentido.<\/p>\n<p>E Moys\u00e9s fazia.<\/p>\n<p>Hoje, quando penso nessa colabora\u00e7\u00e3o, vejo algo que vai muito al\u00e9m da grava\u00e7\u00e3o.\u00a0Estou dividindo uma m\u00fasica extremamente pessoal com dois caras que admiro desde muito antes de imaginar que um dia estar\u00edamos trabalhando juntos.<\/p>\n<p>E isso, pra mim, vale pra caralho.<\/p>\n<h2>Se eu pudesse amassar essa folha&#8230;<\/h2>\n<p>O refr\u00e3o \u00e9 uma das partes mais importantes da m\u00fasica.\u00a0Ele fala sobre a vontade de refazer escolhas.\u00a0E quem nunca quis voltar atr\u00e1s em alguma coisa?<\/p>\n<p>Quem nunca pensou que poderia ter falado diferente, agido diferente, escolhido outro caminho?<br \/>\nTem coisa que a gente olha pra tr\u00e1s e pensa: caralho, por que fiz isso?<\/p>\n<p>Outras vezes, o problema nem \u00e9 uma escolha errada. \u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o que simplesmente aconteceu e que gostar\u00edamos que tivesse sido diferente.\u00a0Na m\u00fasica, a folha de papel representa um pouco disso.<\/p>\n<p>A nossa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>As coisas que escrevemos e aquelas que a vida escreveu sem pedir autoriza\u00e7\u00e3o.\u00a0Amassar a folha seria uma tentativa de come\u00e7ar outra vez.\u00a0S\u00f3 que a vida n\u00e3o funciona assim.<\/p>\n<p>N\u00e3o existe bot\u00e3o de reiniciar.<\/p>\n<p>E, por mais que a gente imagine outras possibilidades, precisa lidar com a hist\u00f3ria que j\u00e1 aconteceu.\u00a0N\u00e3o estou dizendo que tudo tem um motivo, que tudo acontece para ensinar alguma coisa ou qualquer outra frase pronta dessas.\u00a0Tem coisa que simplesmente d\u00f3i.<\/p>\n<p>E pronto.<\/p>\n<p>Mas existe uma diferen\u00e7a entre n\u00e3o conseguir mudar o passado e n\u00e3o poder construir nada daqui pra frente.\u00a0Talvez seja a\u00ed que esteja uma pequena fresta de luz nessa composi\u00e7\u00e3o.\u00a0N\u00e3o \u00e9 sobre apagar tudo.<\/p>\n<p>\u00c9 sobre tentar continuar escrevendo.<\/p>\n<h2>O espelho, os v\u00edcios e aquela sensa\u00e7\u00e3o de n\u00e3o se reconhecer<\/h2>\n<p>Na segunda parte da m\u00fasica, mergulho ainda mais fundo.<\/p>\n<p>Falo de um corpo que parece levitar, mas n\u00e3o encontra leveza. De uma correnteza escura, de medo, de culpa e de um espelho que j\u00e1 n\u00e3o devolve o mesmo rosto.\u00a0\u00c9 uma maneira de representar aquela sensa\u00e7\u00e3o de olhar pra si mesmo e pensar:<\/p>\n<p>Que porra est\u00e1 acontecendo comigo?<\/p>\n<p>\u00c0s vezes, voc\u00ea percebe que n\u00e3o est\u00e1 bem, mas n\u00e3o consegue explicar exatamente por qu\u00ea.\u00a0Outras vezes, sabe que alguma coisa est\u00e1 errada, mas n\u00e3o encontra energia ou clareza para lidar com aquilo.<\/p>\n<p>A m\u00fasica tamb\u00e9m passa pela ideia dos v\u00edcios e da tentativa de anestesiar sentimentos.\u00a0N\u00e3o quis fazer um discurso moralista sobre isso.\u00a0Quis falar da busca por al\u00edvio.\u00a0Da vontade de desligar a cabe\u00e7a por alguns instantes.<\/p>\n<p>S\u00f3 que nem tudo que distrai resolve. Nem tudo que alivia por alguns minutos ajuda a enfrentar aquilo que continua l\u00e1.\u00a0Por isso usei a imagem de uma anestesia que n\u00e3o pega.<\/p>\n<p>\u00c9 uma contradi\u00e7\u00e3o proposital.<\/p>\n<p>Voc\u00ea procura alguma coisa para n\u00e3o sentir, mas continua sentindo.\u00a0E, enquanto isso, o por\u00e3o permanece.<\/p>\n<h2>A m\u00e3e, o pai e o quintal<\/h2>\n<p>Tem uma passagem da m\u00fasica que mexe muito comigo.\u00a0Depois de tanta imagem pesada, tanta sombra e tanta confus\u00e3o, volto para lembran\u00e7as aparentemente simples.<br \/>\nA m\u00e3e. O pai. O quintal.<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00e3o grandes acontecimentos.\u00a0N\u00e3o estou falando de dinheiro, sucesso, fama ou qualquer conquista material.\u00a0Estou falando de coisas que, quando a gente \u00e9 moleque, muitas vezes nem percebe o valor que t\u00eam.<br \/>\nUm quintal. A presen\u00e7a da fam\u00edlia. A sensa\u00e7\u00e3o de que a vida era menos complicada.<\/p>\n<p>E n\u00e3o estou dizendo que minha inf\u00e2ncia foi perfeita ou que antigamente tudo era maravilhoso.\u00a0A mem\u00f3ria tem dessas coisas.\u00a0Ela guarda alguns momentos de um jeito diferente.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes, o que d\u00e1 saudade nem \u00e9 exatamente do lugar.\u00a0\u00c9 de como a gente se sentia naquele lugar.\u00a0Ou de quem a gente era naquela \u00e9poca.<\/p>\n<p>No meio de uma m\u00fasica sobre um por\u00e3o escuro, o quintal aparece quase como o oposto de tudo aquilo.<br \/>\nO por\u00e3o \u00e9 fechado.<br \/>\nO quintal \u00e9 aberto.<br \/>\nNo por\u00e3o, as paredes parecem se aproximar. No quintal, existe espa\u00e7o.<\/p>\n<p>Talvez seja uma das imagens mais simples da letra. E uma das que mais dizem.<\/p>\n<h2>Conversei com Deus. E ouvi meus pr\u00f3prios pensamentos<\/h2>\n<p>A terceira parte da m\u00fasica entra em outro terreno.<br \/>\nF\u00e9. D\u00favida. Ora\u00e7\u00e3o. Sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Aquela procura por alguma resposta quando a cabe\u00e7a j\u00e1 est\u00e1 cansada de fazer perguntas.\u00a0N\u00e3o escrevi essa parte para ensinar ningu\u00e9m a acreditar ou deixar de acreditar em alguma coisa.\u00a0\u00c9 uma representa\u00e7\u00e3o de um momento de busca.<\/p>\n<p>De quando a gente pede um sinal, tenta conversar com algo maior e fica esperando que alguma resposta apare\u00e7a.\u00a0Mas nem sempre aparece.\u00a0\u00c0s vezes, o que voc\u00ea escuta s\u00e3o os pr\u00f3prios pensamentos.<\/p>\n<p>E isso pode ser desconcertante.<\/p>\n<p>A luz que aparece na letra n\u00e3o \u00e9 uma promessa de que tudo vai se resolver.\u00a0Pode ser esperan\u00e7a.\u00a0Pode ser f\u00e9.\u00a0Pode ser s\u00f3 a vontade de encontrar alguma sa\u00edda.<\/p>\n<p>Porque, mesmo nos momentos em que tudo parece escuro, uma parte da gente ainda procura alguma coisa.\u00a0Talvez seja justamente essa procura que fa\u00e7a a pessoa continuar tentando.<\/p>\n<h2>O caderno virou abrigo<\/h2>\n<p>Tem uma coisa que atravessa O Por\u00e3o inteiro: a escrita.\u00a0Papel, manuscrito, rascunho, rabisco, caligrafia, folha, caderno.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 por acaso. Tudo come\u00e7ou com palavras escritas numa madrugada.\u00a0E, ao longo da composi\u00e7\u00e3o, o papel vai se transformando quase num lugar onde posso despejar aquilo que n\u00e3o consigo explicar de outra maneira.<\/p>\n<p>N\u00e3o vou dizer que escrever curou minha depress\u00e3o. N\u00e3o curou.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o vou vender aquela conversa de que basta pensar positivo, ocupar a cabe\u00e7a ou encontrar um hobby para resolver tudo.\u00a0Quem passa por isso sabe que a parada \u00e9 muito mais complexa.<\/p>\n<p>Tratamento \u00e9 coisa s\u00e9ria.\u00a0Acompanhamento profissional \u00e9 importante.\u00a0E cada pessoa enfrenta suas dificuldades de um jeito.\u00a0Mas escrever me permitiu dar forma a sentimentos que estavam embolados.<\/p>\n<p>N\u00e3o resolveu tudo. N\u00e3o apagou lembran\u00e7as.\u00a0N\u00e3o fez os problemas desaparecerem.\u00a0S\u00f3 que algumas coisas que estavam presas na minha cabe\u00e7a passaram a existir no papel.<\/p>\n<p>E, depois, numa m\u00fasica.<\/p>\n<p>Talvez algu\u00e9m escute O Por\u00e3o e reconhe\u00e7a um sentimento que nunca conseguiu explicar.\u00a0Talvez outra pessoa n\u00e3o se identifique com nada.\u00a0Tudo bem tamb\u00e9m.\u00a0Eu n\u00e3o escrevi essa m\u00fasica para ser uma cartilha sobre depress\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Escrevi porque tinha alguma coisa dentro de mim pedindo passagem.<\/strong><\/p>\n<h2>Depress\u00e3o n\u00e3o tem cara, uniforme ou endere\u00e7o<\/h2>\n<p>Quero falar de uma coisa que considero importante.\u00a0Existe uma tend\u00eancia de imaginar que a depress\u00e3o sempre aparece de um jeito evidente.\u00a0Como se a pessoa precisasse estar chorando, isolada ou demonstrando tristeza o tempo inteiro.<\/p>\n<p>Mas nem sempre \u00e9 assim.<\/p>\n<p>Voc\u00ea pode encontrar algu\u00e9m trabalhando, brincando, contando piada, fazendo planos e resolvendo a vida de todo mundo.\u00a0E n\u00e3o fazer ideia do que aquela pessoa enfrenta quando est\u00e1 sozinha.\u00a0N\u00e3o estou dizendo que todo mundo vive a mesma experi\u00eancia.\u00a0Nem que a minha hist\u00f3ria representa a de todas as pessoas que convivem com depress\u00e3o ou ansiedade.<\/p>\n<p>N\u00e3o representa. \u00c9 a minha.<\/p>\n<p>Mas talvez ajude algu\u00e9m a compreender que sofrimento emocional n\u00e3o \u00e9 frescura, falta de vontade ou fraqueza.\u00a0E que n\u00e3o adianta chegar com meia d\u00fazia de frases prontas achando que resolveu o problema.\u00a0\u00c0s vezes, a pessoa precisa ser ouvida.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes, precisa de acompanhamento profissional.<br \/>\n\u00c0s vezes, precisa de tempo, acolhimento e condi\u00e7\u00f5es para continuar o tratamento.<\/p>\n<p>E, muitas vezes, precisa de uma combina\u00e7\u00e3o dessas coisas.\u00a0Se essa m\u00fasica conseguir abrir uma conversa sobre isso, j\u00e1 ter\u00e1 alcan\u00e7ado algo que eu nem imaginava quando escrevi a poesia.<\/p>\n<h2>De f\u00e3 a parceiro de m\u00fasica. Que viagem do caralho!<\/h2>\n<p>Tem uma parte dessa hist\u00f3ria que ainda acho curiosa.\u00a0Eu cresci ouvindo e admirando artistas que fizeram parte da constru\u00e7\u00e3o do meu gosto musical.<\/p>\n<p>DJ Yzak, nos tempos de Consci\u00eancia X Atual.<br \/>\nRapper Moys\u00e9s, nas trajet\u00f3rias do A286, Fac\u00e7\u00e3o Central e em seus trabalhos autorais.<\/p>\n<p>Esses caras faziam parte do meu universo como ouvinte. E hoje fazem parte da minha vida como amigos.\u00a0Mais do que isso: est\u00e3o comigo numa m\u00fasica que nasceu de uma experi\u00eancia extremamente pessoal.\u00a0Se algu\u00e9m tivesse me contado isso l\u00e1 atr\u00e1s, provavelmente eu daria risada.<\/p>\n<p>E n\u00e3o porque fosse imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>Mas porque a vida segue uns caminhos t\u00e3o malucos que a gente n\u00e3o consegue imaginar onde vai parar.\u00a0O mais interessante \u00e9 que essa colabora\u00e7\u00e3o n\u00e3o nasceu de uma estrat\u00e9gia para juntar nomes conhecidos numa faixa.<\/p>\n<p>Nasceu de amizade.\u00a0De admira\u00e7\u00e3o.\u00a0De identifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Yzak ouviu uma poesia e me incentivou a voltar.<br \/>\nMoys\u00e9s aceitou dividir comigo uma parada que fala de sentimentos dif\u00edceis.<\/p>\n<p>E eu tive a oportunidade de fazer m\u00fasica com dois artistas que admiro h\u00e1 muitos anos.\u00a0\u00c9 uma daquelas situa\u00e7\u00f5es em que o significado pessoal \u00e9 t\u00e3o grande quanto o resultado art\u00edstico.<\/p>\n<h2>O moleque das fitas cassete e o homem de 47<\/h2>\n<p>Comecei a escrever aos 13 anos.\u00a0Aos 15, j\u00e1 estava fazendo minhas rimas e gravando em fitas cassete.\u00a0Vivi o rap at\u00e9 por volta dos 19.<\/p>\n<p>Depois, segui outros caminhos na m\u00fasica, trabalhei com artistas de outros g\u00eaneros e, mais tarde, me afastei desse universo.<\/p>\n<p>Hoje! E aqui estou eu, de volta ao rap.\u00a0S\u00f3 que n\u00e3o estou tentando recuperar aquele moleque de antigamente.\u00a0Ele fez parte da minha hist\u00f3ria, mas a vida aconteceu.<\/p>\n<p>Muita coisa mudou. Eu mudei.<\/p>\n<p>E seria estranho voltar fingindo que continuo enxergando o mundo da mesma maneira.<br \/>\nO Por\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma m\u00fasica que eu teria escrito aos 15 anos.<\/p>\n<p>N\u00e3o porque aquele moleque fosse incapaz de escrever algo intenso, mas porque esta composi\u00e7\u00e3o carrega experi\u00eancias, sentimentos e perguntas que vieram depois.<\/p>\n<p>S\u00e3o marcas de uma caminhada.<br \/>\nAlgumas boas.<br \/>\nOutras nem tanto.<\/p>\n<p>E talvez seja isso que mais me impressione nessa hist\u00f3ria.\u00a0Depois de tantos anos longe do rap, n\u00e3o foi a saudade do palco, do microfone ou de gravar uma m\u00fasica que me trouxe de volta.\u00a0Foi a necessidade de escrever.\u00a0De colocar alguma coisa pra fora.<\/p>\n<p><strong>Voltei ao rap porque, numa madrugada, precisei conversar com um peda\u00e7o de papel.<\/strong><\/p>\n<h2>Nem todo por\u00e3o fica debaixo de uma casa<\/h2>\n<p>Agora que O Por\u00e3o virou m\u00fasica e est\u00e1 dispon\u00edvel para outras pessoas ouvirem, tenho pensado bastante sobre tudo isso.<\/p>\n<p>\u00c9 estranho imaginar que uma poesia t\u00e3o pessoal possa chegar a algu\u00e9m que nunca me viu, nunca conversou comigo e n\u00e3o sabe absolutamente nada sobre minha vida.\u00a0Essa pessoa pode ouvir a m\u00fasica e interpretar de um jeito completamente diferente daquele que imaginei quando escrevi.<\/p>\n<p>E est\u00e1 tudo certo.\u00a0A arte tamb\u00e9m \u00e9 isso.<\/p>\n<p>Depois que a gente coloca uma obra no mundo, ela deixa de pertencer apenas \u00e0 nossa interpreta\u00e7\u00e3o.\u00a0Cada um escuta com suas pr\u00f3prias lembran\u00e7as, suas experi\u00eancias, suas dores e sua maneira de enxergar as coisas.<\/p>\n<p>N\u00e3o espero que O Por\u00e3o resolva o problema de ningu\u00e9m.\u00a0Nem que todo mundo goste.\u00a0Muito menos que seja recebida como alguma grande li\u00e7\u00e3o de vida.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 essa a inten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Eu s\u00f3 queria transformar sentimentos em palavras.\u00a0E, por uma dessas voltas que a vida d\u00e1, aquelas palavras viraram uma m\u00fasica com dois amigos que admiro pra caralho.<\/p>\n<p>Se algu\u00e9m se identificar, espero que encontre tamb\u00e9m espa\u00e7o para conversar sobre aquilo que sente e procurar apoio quando precisar.<\/p>\n<p>Quanto a mim, continuo tentando entender muita coisa.\u00a0Ainda tenho perguntas.\u00a0Ainda tenho lembran\u00e7as que gostaria de reorganizar.\u00a0Ainda existem dias bons e dias dif\u00edceis.\u00a0N\u00e3o vou inventar um final feliz s\u00f3 para deixar esse texto mais bonito.<\/p>\n<p>A vida n\u00e3o \u00e9 um filme em que tudo se resolve nos \u00faltimos cinco minutos.\u00a0Mas uma coisa eu posso dizer:<\/p>\n<p>Aquela madrugada, que come\u00e7ou com um monte de pensamentos dif\u00edceis e uma folha de papel, acabou me devolvendo algo que estava distante havia muitos anos.<\/p>\n<p>O rap.<\/p>\n<p>E isso tem um significado enorme pra mim.<br \/>\n<strong>Nem todo por\u00e3o fica debaixo de uma casa.<\/strong><\/p>\n<p>Alguns ficam dentro da gente.\u00a0E, \u00e0s vezes, a primeira maneira de abrir uma porta \u00e9 conseguir falar sobre o que existe l\u00e1 dentro.\u00a0Foi o que tentei fazer.<\/p>\n<p>Sem personagem. Sem maquiagem. Sem fingir que tenho todas as respostas.<br \/>\n<strong>S\u00f3 eu, minhas rimas e essa porra de por\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<div>\n<p><iframe loading=\"lazy\" style=\"border-radius: 12px;\" src=\"https:\/\/open.spotify.com\/embed\/artist\/4jnBgu2SiVyBgnElnR5Fxf?utm_source=generator&amp;si=7444e3a38d1d4fa9\" width=\"100%\" height=\"352\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-testid=\"embed-iframe\"><\/iframe><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/music.youtube.com\/watch?v=ArwneSz2cgQ&amp;si=vKWnzzKvl02gRIeq\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">OUVIR NO YOUTUBE MUSIC<\/a><\/p>\n<hr \/>\n<\/div>\n<p><strong>NIASA &#8211; O POR\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p>Composi\u00e7\u00e3o e interpreta\u00e7\u00e3o: Niasa<br \/>\nProdu\u00e7\u00e3o musical: DJ Yzak<br \/>\nParticipa\u00e7\u00e3o especial e refr\u00e3o: Rapper Moys\u00e9s<br \/>\nGravadora: Abracadabra<br \/>\nLan\u00e7amento: outubro de 2026<\/p>\n<p><em>Se voc\u00ea est\u00e1 enfrentando sofrimento emocional, n\u00e3o precisa lidar com tudo sozinho. Busque apoio de pessoas de confian\u00e7a e profissionais de sa\u00fade. No Brasil, o CVV oferece escuta gratuita pelo telefone 188, 24 horas por dia.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma madrugada, uma cabe\u00e7a cheia de pensamentos, anos de tratamento contra a depress\u00e3o e uma poesia que acabou me levando de volta ao rap. Essa \u00e9 a hist\u00f3ria de O Por\u00e3o. Sem maquiagem, sem personagem e sem fingir que est\u00e1 tudo bem. Primeiro, preciso contar de onde saiu essa parada Vou come\u00e7ar deixando uma coisa &hellip;<\/p>\n<p class=\"read-more\"> <a class=\"\" href=\"https:\/\/marcioniasa.eu\/blog\/o-porao-eu-nao-escrevi-essa-porra-pra-virar-musica\/\"> <span class=\"screen-reader-text\">O Por\u00e3o: Eu n\u00e3o escrevi essa porra pra virar m\u00fasica<\/span> Leia mais &raquo;<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1292,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_mi_skip_tracking":false,"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-global-header-display":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","footnotes":""},"categories":[96,156],"tags":[111,178,110,124,177,115,43,114,121,176,179],"class_list":["post-1278","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-musica","category-pessoal","tag-ansiedade","tag-boom-bap","tag-depressao","tag-dj-yzak","tag-hip-hop","tag-musica","tag-niasa","tag-rap","tag-rap-nacional","tag-rapper","tag-rapper-moyses"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/marcioniasa.eu\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1278","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/marcioniasa.eu\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/marcioniasa.eu\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/marcioniasa.eu\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/marcioniasa.eu\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1278"}],"version-history":[{"count":10,"href":"https:\/\/marcioniasa.eu\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1278\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1289,"href":"https:\/\/marcioniasa.eu\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1278\/revisions\/1289"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/marcioniasa.eu\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1292"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/marcioniasa.eu\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1278"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/marcioniasa.eu\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1278"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/marcioniasa.eu\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1278"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}